Em muitas indústrias, a poeira é vista como um simples resíduo — algo que incomoda visualmente ou atrapalha a limpeza — mas raramente é tratada como uma ameaça real. No entanto, nas indústrias que lidam com grãos, metais, produtos químicos, madeira, plásticos e outros materiais particulados, essa poeira ganha outra conotação: ela é um sinal claro de que há perigo à vista.
A classificação de áreas sujeitas à presença de poeiras combustíveis é essencial para prevenir explosões e incêndios industriais. Para isso, as normas nacionais e internacionais estabelecem critérios específicos para definir zonas de risco, classificar os tipos de poeiras e estabelecer procedimentos de limpeza e documentação.
Tipos de poeira combustível
As poeiras industriais são classificadas conforme suas características de condutividade elétrica e combustibilidade:
Classificação das zonas: Quando e onde a poeira representa perigo
As zonas são classificadas com base na frequência e na duração com que uma atmosfera explosiva de poeira pode estar presente no ambiente. Ou seja, considera-se o quão provável é a poeira estar suspensa no ar em quantidade suficiente para formar uma mistura inflamável, e por quanto tempo essa condição pode durar. Quanto mais frequente e prolongada for essa presença, maior será o nível de risco e mais severa será a classificação da zona.
Zona 20 – Risco contínuo e frequente
- Poeira combustível está presente continuamente ou por longos períodos.
- Ambientes fechados onde há alta concentração de poeira suspensa.
- Alto risco de explosão devido à presença constante de partículas inflamáveis.
Exemplos comuns:
Interior de silos, filtros de ar, ciclones, equipamentos de ensacamento e transportadores pneumáticos.
Moinhos e secadores industriais.
Sistemas de transporte de poeira que operam sob altas cargas.
Zona 21 – Presença intermitente de poeira combustível
- Poeira pode estar suspensa no ar ocasionalmente durante o processo.
- Ocorre em áreas adjacentes a fontes primárias de liberação.
- Pode gerar atmosferas explosivas por curtos períodos de tempo.
Exemplos comuns:
Áreas ao redor de silos, portas de acesso e pontos de enchimento/esvaziamento.
Estações de transbordo de caminhões e esteiras transportadoras.
Partes externas de filtros industriais sem sistema adequado de contenção.
Zona 22 – Presença ocasional e acidental de poeira
- Poeira está presente raramente e apenas sob condições anormais.
- Pode ocorrer devido a vazamentos inesperados, acúmulos de poeira ou falhas no sistema.
- É uma zona de menor risco, mas ainda requer controle adequado.
Exemplos comuns:
Próximo a válvulas de alívio e respiros de filtros tipo bolsa.
Depósitos onde sacos de materiais particulados podem rasgar.
Áreas onde a poeira pode ser soprada ou dispersa pelo vento.
⚠️ ATENÇÃO : Além da presença de poeira em suspensão, a norma também alerta que o acúmulo de camadas de poeira nas superfícies deve ser levado em consideração na hora de classificar uma área. Essas camadas, quando perturbadas — por exemplo, pela movimentação de pessoas, abertura de portas ou correntes de ar — podem se tornar uma nuvem de poeira inflamável. Por isso, em locais onde há formação de camadas espessas ou persistentes, pode ser necessária uma classificação adicional da área, mesmo que a poeira normalmente não fique suspensa no ar.
Etapas do procedimento de classificação
Segundo a norma, ABNT 60079-10-2 ,classificar uma área não é tarefa simples: é preciso seguir etapas bem definidas e contar com apoio de profissionais especializados. O processo inclui:
- Verificar se o material é combustível, e determinar suas propriedades: tamanho das partículas, teor de umidade, temperatura mínima de ignição, resistividade elétrica, grupo da poeira, entre outros.
- Identificar os pontos do processo onde há liberação ou acúmulo de poeira.
- Analisar a frequência e a intensidade das liberações, para definir se há risco constante, intermitente ou apenas ocasional.
- Considerar as condições que podem levantar camadas de poeira, como ventilação, vento ou movimentação de pessoas.
- Definir as zonas de risco e sua extensão, com base nos dados anteriores.
Conteúdo essencial da documentação de áreas classificadas
A documentação das áreas classificadas é um requisito crítico para garantir que todas as medidas de segurança estejam implementadas corretamente. Esta documentação deve ser clara, detalhada e acessível para todos os envolvidos na operação e fiscalização da instalação.
Aqui estão os principais pontos que devem estar na documentação:
1️⃣ Parâmetros do material
Cada poeira possui características únicas que influenciam seu comportamento explosivo. Para classificar uma área corretamente, é essencial documentar os seguintes parâmetros:
- Temperatura de ignição da nuvem de poeira – Temperatura mínima necessária para que uma nuvem suspensa de poeira entre em combustão.
- Temperatura de ignição da camada de poeira – Poeira acumulada pode incendiar a temperaturas mais baixas do que a poeira suspensa. Esse valor define o limite crítico para superfícies quentes.
- Energia mínima de ignição (EMI) – Determina a menor quantidade de energia (em miliJoules) necessária para inflamar uma nuvem de poeira. Quanto menor o valor, maior o risco de ignição por faíscas eletrostáticas.
- Grupo da poeira – Classificação da poeira conforme sua condutividade elétrica
- Limites de explosividade – Concentração mínima e máxima de poeira suspensa no ar necessária para causar uma explosão.
- Resistividade elétrica – Determina se a poeira pode acumular cargas eletrostáticas e gerar descargas que possam iniciar uma explosão.
- Nível de umidade – Poeiras muito secas aumentam o risco de ignição, enquanto umidade excessiva pode afetar processos industriais.
- Tamanho das partículas – Poeiras finas (menores que 75 mícrons) são mais perigosas, pois podem permanecer suspensas no ar por mais tempo e se dispersar facilmente.
⚠️ATENÇÃO : Essas informações podem ser obtidas por testes laboratoriais conforme a norma ISO/IEC 80079-20-2.Valores obtidos em fontes publicadas devem ser validados, pois podem variar conforme a aplicação.
2️⃣ Desenhos e plantas da instalação
A documentação deve conter mapas detalhados da instalação, mostrando as áreas classificadas e os pontos críticos.
- Zonas classificadas (20, 21 e 22) – Devem ser indicadas claramente nos desenhos para facilitar a identificação dos riscos.
- Extensão das camadas de poeira – Indica locais onde há acúmulo de poeira e qual a espessura máxima permitida.
- Temperaturas de ignição – Informações sobre superfícies quentes próximas às áreas classificadas, evitando pontos de ignição acidentais.
- Simbologias padronizadas – Um conjunto de símbolos e legendas padronizadas ajuda na leitura rápida dos documentos técnicos.
3️⃣ Fontes de liberação de poeira
As áreas classificadas devem identificar todos os equipamentos e processos que geram poeira ao longo do ciclo produtivo. Em muitas indústrias, esses pontos críticos estão presentes desde o recebimento da matéria-prima até a expedição do produto final.
Entre os principais exemplos estão os transportadores de correia, os elevadores de caneca, os moinhos e trituradores, os filtros industriais e sistemas de exaustão, além dos pontos de enchimento e esvaziamento, especialmente na movimentação de grãos, farinhas, metais e outros materiais em pó, que favorecem a dispersão de poeira no ar. Também devem ser considerados os silos e armazéns, bem como as estações de ensacamento e o manuseio de sacos.
A natureza da liberação de poeira a partir de fontes de processo específicas pode variar significativamente, sendo necessário, em alguns casos, o uso de conhecimentos especializados em engenharia de processo para a correta identificação e avaliação dessas fontes.
4️⃣ Medidas de mitigação e parâmetros de processo
A documentação também deve mostrar o que está sendo feito para evitar ou reduzir a formação de atmosferas explosivas. Isso envolve desde equipamentos que controlam a poeira no ambiente até os principais parâmetros do processo que podem influenciar esse risco como, por exemplo:
- Sistemas de contenção e exaustão –Equipamentos que evitam a liberação descontrolada de poeiras no ambiente. Hoje existem sensores que detectam o aumento de poeira no local.
- Inertização, supressão e enclausuramento – Técnicas utilizadas para reduzir o risco de ignição ou propagação de explosões.
- Procedimentos operacionais – Instruções padronizadas para evitar condições perigosas durante a operação normal ou anormal.
- Parâmetros de processo – Pressão, temperatura, vazão e outras variáveis que afetam o comportamento da poeira no ambiente.
5️⃣ Procedimentos de limpeza e manutenção
Deve-se registrar os métodos e frequências de limpeza, além de práticas seguras de manutenção nas áreas classificadas, como por exemplo :
- Limpeza – Frequência mínima, técnicas utilizadas e materiais permitidos para não gerar fontes de ignição (como vassouras antiestáticas ou aspiradores industriais).a limpeza pode ser dividida em três níveis:
- Manutenção – Procedimentos para intervenções seguras em equipamentos localizados em áreas classificadas, evitando o uso de ferramentas ou métodos que possam gerar faíscas.
- Registros – Devem ser mantidos registros atualizados de limpeza e manutenção como parte do controle de risco.
6️⃣ Revisão e atualização da classificação de áreas
Sempre que houver mudanças na planta, nos materiais, equipamentos ou processos, a classificação de áreas deve ser reavaliada.
- Revisões periódicas – A classificação deve ser revista periodicamente, mesmo sem alterações operacionais, para garantir sua atualidade.
- Mudanças no processo – Novos materiais, alterações na ventilação, no layout ou no tipo de operação exigem reclassificação.
- Histórico de alterações – A documentação deve manter o registro de todas as revisões realizadas, com data, motivo e responsável técnico.
7️⃣ EPL – Equipment Protection Level
A documentação deve indicar o EPL (nível de proteção de equipamento) exigido para cada área classificada, garantindo a instalação de dispositivos compatíveis com o risco de ignição presente.
- EPL para Zona 20 – Equipamentos com nível de proteção “muito alto” (por exemplo, Da);
- EPL para Zona 21 –Equipamentos com nível de proteção “alto” (por exemplo, Db);
- EPL para Zona 22 – Equipamentos com nível de proteção “normal” (por exemplo, Dc);
- Compatibilidade – A escolha do EPL deve considerar a severidade do ambiente e as características específicas da poeira presente.
Certificação de competência pessoal: EX de Excelência
Não é qualquer pessoa que deve atuar em áreas com risco de explosão. A avaliação e a classificação de atmosferas explosivas exigem profissionais qualificados, com conhecimento técnico aprofundado, experiência prática e, acima de tudo, certificação reconhecida.
Para garantir uma avaliação adequada da conformidade das competências pessoais “Ex”, é necessário que o profissional:
- Possua formação técnica ou educação continuada na área de atmosferas explosivas;
- Passe por avaliações teóricas e práticas periódicas para manutenção da certificação;
- Tenha certificação emitida por organismo de certificação acreditado conforme a norma ABNT NBR ISO/IEC 17024;
- Seja aprovado em unidades de certificação específicas, que vão de Ex 000 a Ex 010, abrangendo desde os princípios básicos de segurança em atmosferas explosivas até a inspeção e realização de auditorias em instalações elétricas nessas áreas classificadas.
Essa certificação é mais do que um requisito — é quase uma garantia de competência técnica, responsabilidade e comprometimento com a segurança. Contar com profissionais certificados é fundamental para reduzir riscos, atender às normas e proteger pessoas, processos e instalações.
O Perigo está no ar — e a solução, no conhecimento
Poeira não é apenas sujeira: é um alerta suspenso no ar. Em certos ambientes industriais, esse ar se torna tão carregado de partículas inflamáveis que se assemelha a uma atmosfera saturada de pólvora — basta uma faísca, e o resultado é devastador.
O que parece inofensivo pode, na verdade, ser o combustível perfeito para uma tragédia. Por isso, entender as zonas com poeiras combustíveis, classificá-las corretamente e documentar cada detalhe técnico não é apenas uma obrigação legal — é uma atitude responsável e estratégica. Se há poeira no ar, é hora de agir: classifique, controle, limpe, documente e, acima de tudo, proteja. Porque a segurança começa exatamente onde muitos acreditam que termina: na atenção aos detalhes mais sutis — como uma fina camada de pó que, ignorada, pode ter o mesmo efeito de pólvora seca em um rastilho aceso.
Contar com equipamentos confiáveis, desenvolvidos especificamente para operar em áreas classificadas, faz toda a diferença na prevenção. Busque soluções técnicas adequadas — e conte com a Grunn para isso. Sua operação segura, do início ao fim.






