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Lições Explosivas
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Lições explosivas | O caso de Palotina

Lições explosivas - capa

Até aqui, todas as histórias da série Lições Explosivas aconteceram fora do Brasil, em lugares como Estados Unidos e Taiwan. Casos que, à primeira vista, podem parecer distantes, como se o risco morasse longe. Mas não é preciso olhar para fora para enxergar o perigo. Ele está aqui, no nosso quintal, em nossa casa. O Lições Explosivas de hoje aborda a tragédia em Palotina, no interior do Paraná, que mostra que a poeira combustível é uma ameaça real, mortal e está mais próxima do que muitos imaginam.

Quando a poeira virou fogo: a explosão em Palotina

Naquela tarde abafada de julho, o céu de Palotina parecia o mesmo de sempre, azul lavado, cheiro de milho no ar e o vai e vem constante de caminhões pelas ruas da pequena cidade do oeste paranaense. Mas bastou um segundo para tudo mudar.

Por volta das 16h35 do dia 26 de julho de 2023, o chão tremeu. Casas próximas estalaram como madeira seca. Algumas paredes cederam. Janelas se quebraram, muros racharam. Pessoas que estavam em comércios vizinhos correram para fora, em pânico. A mais de 5 quilômetros de distância, moradores ouviram o estrondo e saíram de casa, tentando entender o que havia acontecido.

Foi então que, ao longe, viram a nuvem de poeira se erguer no horizonte, denunciando a origem da tragédia. A explosão havia ocorrido na cooperativa da cidade, um símbolo de progresso e orgulho local, agora tomada pela destruição. 

Uma engrenagem gigante em Palotina

Para entender a dimensão da tragédia, é preciso primeiro compreender o que representa a C.Vale. Fundada nos anos 60, ela cresceu junto com a cidade de Palotina. Hoje, é uma potência do agronegócio brasileiro: movimenta soja, milho e trigo, fabrica rações, comercializa proteína de frango, peixe e porco, e gera emprego para milhares de pessoas.

A cooperativa processa cerca de 40 mil sacas de grãos por dia, o que representa aproximadamente 66% de sua capacidade máxima de produção. No contexto nacional, as cooperativas brasileiras têm uma capacidade de esmagamento de 25 mil toneladas de soja por dia, sendo que 20 mil dessas toneladas são esmagadas no Paraná ,evidenciando a importância estratégica da região.

Dentro dos armazéns e túneis subterrâneos das cooperativas, toneladas de grãos são movimentadas diariamente. Esses ambientes, muitas vezes longe dos olhos de quem passa na rua, exigem vigilância constante. A poeira de grãos, quando se acumula e permanece em suspensão no ar, pode explodir como pólvora, basta uma faísca para que a rotina se transforme em tragédia.

A explosão que ninguém viu chegar

Era para ser apenas mais um turno normal. Funcionários atuavam em diversos setores da cooperativa, alheios ao que poderia acontecer e a quão perto estavam do perigo. Talvez essa seja a maior preocupação em ambientes com poeira combustível: o fato de que inúmeras variáveis podem transformar um dia tranquilo em um desastre completo.

Fernando Mota Cardoso trabalhava no setor de expedição, classificando soja com mais quatro colegas, quando ouviu um estrondo. Depois disso, lembra apenas de acordar no chão, sem conseguir se levantar. Ao olhar em volta, viu-se em meio ao caos. “Senti medo, olhava em volta e via só entulho. As paredes estavam todas trincadas”, relatou em entrevista.

No momento do acidente, equipes de socorro de toda a região correram para a cooperativa. O que encontraram foi descrito como um cenário de guerra: estruturas retorcidas, silos destruídos, poeira e fumaça no ar. As imagens aéreas divulgadas pela imprensa revelavam um campo devastado, com placas metálicas lançadas a dezenas de metros e concreto estilhaçado por toda parte.

O que veio depois da explosão

Enquanto a cidade chorava seus mortos, a realidade emergia nas investigações. Auditores-fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego junto a peritos criminais vasculharam os escombros. O que encontraram foi um sistema corroído pela negligência: limpeza feita com as máquinas em funcionamento, esteiras sem parada, trabalhadores sem capacitação adequada para atuar em espaços confinados, ausência de monitoramento de temperatura e alertas internos (emitidos desde 2022) ignorados pela gestão.

A explosão foi causada por uma combinação fatal: poeira combustível acumulada, oxigênio e uma faísca.O túnel onde tudo começou media 1,60 metro de largura, 2 metros de altura e 100 metros de comprimento. Um ambiente estreito e abafado, onde o fogo se propaga com extrema rapidez. O resultado foi devastador. 

Durante os nove meses de apuração, aproximadamente 50 pessoas foram ouvidas. Ao final, o inquérito da Polícia Civil chegou às mesmas conclusões do Ministério Público do Trabalho: a explosão foi consequência direta de falhas graves nos procedimentos de limpeza e na gestão de segurança dos túneis.

Três funcionários da cooperativa foram indiciados por homicídio culposo e lesão corporal: o gerente geral da unidade, com 25 anos de casa; o gerente de segurança do trabalho, com 11 anos de experiência na função; e um analista operacional. Segundo os investigadores, todos tinham conhecimento dos riscos, mas negligenciaram medidas básicas de prevenção. Se condenados, podem pegar até quatro anos e meio de prisão.

De acordo com o delegado Rodrigo Baptista Santos, a investigação apurou que era de conhecimento geral que a poeira poderia causar uma explosão. Foram identificados os responsáveis por cada setor e como suas condutas contribuíram para a tragédia. O delegado afirmou que o analista operacional, responsável direto pelas vítimas, deixou de exigir e cumprir normas previstas no Procedimento Operacional Padrão e nas normas trabalhistas.

Ainda segundo o delegado, os outros dois indiciados também sabiam da necessidade de atualização e manutenção dos sistemas, bem como dos riscos envolvidos. Em fevereiro de 2023, foi emitido um relatório interno apontando diversas falhas e a ineficiência do sistema de desempoeiramento dos túneis. O gerente geral decidiu realizar apenas substituições pontuais com funcionários da própria cooperativa, sem qualificação para esse tipo de serviço. Não abriu ordem de serviço nem contratou empresa especializada. Essa postura, segundo o delegado, demonstra a negligência com que tratou um problema grave. O gerente de segurança do trabalho, mesmo ciente dos riscos, não acompanhou a execução da manutenção, contribuindo para o desfecho trágico.

A ferida que a poeira deixou

Em Palotina, a poeira voltou a assentar. Mas para quem perdeu entes queridos, para quem sobreviveu ao inferno daquela tarde, nada voltou ao normal. A cidade, antes marcada pelo ritmo da produção agrícola, passou a conviver com o luto e com o peso da tragédia que abalou famílias, vizinhos e colegas de trabalho. Foram dez mortos, entre eles oito trabalhadores haitianos terceirizados e dois brasileiros.

Entre as vítimas estava Francisca dos Santos, de 33 anos, mãe de dois filhos. Ela foi atingida no térreo, quando as chamas subiram pelos poços dos elevadores. Lutou por 16 dias no hospital antes de morrer.

A tragédia deixou lições duras. Em ambientes como túneis de transporte de grãos, o perigo mora no invisível. E, na pressa da safra, na rotina dos dias iguais, é fácil esquecer que o trabalho que alimenta o mundo também pode, se não for tratado com o devido respeito e responsabilidade, cobrar o preço mais alto.

Francisca, Fernando, os haitianos mortos e os demais feridos nos lembram que nenhuma negligência é pequena demais quando vidas estão em jogo. E que, quando o perigo é ignorado, quem paga a conta é toda a comunidade.

O perigo não vem de fora. Ele já está aqui.

A tragédia de Palotina mostrou que o perigo não está longe, nem restrito a outros países. Ele está aqui, ao nosso redor, oculto na rotina e nos silêncios do dia a dia industrial. Perigo, nesse contexto, é qualquer condição ou fonte com potencial de causar danos, como a poeira combustível suspensa no ar. E quando negligenciamos riscos conhecidos, quando ignoramos sinais de alerta e deixamos de aplicar medidas de controle, não apenas nos aproximamos do perigo. Nós o convidamos a entrar. As consequências são sérias e estão diante de nós. As lições foram deixadas. Cabe agora transformar cada uma delas em mudança concreta, antes que sejamos parte da próxima tragédia.


A série Lições Explosivas investiga tragédias industriais envolvendo poeiras combustíveis e condições negligentes de segurança. A cada episódio, um caso real é revisitado em detalhes para revelar as falhas humanas, institucionais e tecnológicas que o provocaram. Mais do que relatar acidentes, esta série busca extrair lições para que outras vidas não se percam da mesma forma. Leia outros lições explosivas aqui. 

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