Em 20 de agosto de 1997, às 10h15, uma explosão em um silo de cereais mudou para sempre a rotina da cidade de Blaye, no sudoeste da França. O acidente ocorreu na unidade da Société d’Exploitation Maritime Blayaise (SEMABLA), durante o descarregamento de milho. A instalação estava praticamente cheia e, em poucos instantes, parte da estrutura veio abaixo, atingindo os escritórios próximos. O acidente resultou em 11 mortes e um ferido grave.
A SEMABLA atuava principalmente no manuseio e armazenamento de cereais destinados à exportação marítima, recebendo quase todas as cargas por caminhões. A unidade contava com 21 trabalhadores fixos. Para operações de ensaque e para as etapas críticas de carregamento de navios, a empresa contratava cerca de 75 temporários a cada período de 24 horas.
Como aconteceu
Naquela manhã, um caminhão basculante descarregava milho na moega localizada ao lado dos escritórios administrativos e técnicos. Minutos antes, outro caminhão havia descarregado trigo em uma moega vizinha. Restos de trigo e cevada ainda podiam ser vistos na correia, sinalizando que o transporte dessa carga havia sido concluído.
Na parte inferior da instalação, dois transportadores de corrente estavam em funcionamento: uma retirava cevada de uma célula para um galpão e a outra fazia uma transferência interna.
Durante esse processo, uma nuvem de poeira suspensa no interior do silo entrou em contato com uma fonte de ignição. A primeira explosão ocorreu na torre de manuseio do lado norte.
A onda de pressão percorreu os passadiços superiores cobertos por poeira, levantando mais partículas e provocando uma segunda explosão mais forte. As paredes cederam, blocos de concreto e ferro foram lançados a longas distâncias e prédios vizinhos foram atingidos.
Estrutura do complexo
O complexo da SEMABLA era um dos maiores da região, com capacidade total de 130 mil toneladas de grãos, 40 mil armazenadas em silos verticais e 90 mil em armazéns horizontais. As torres verticais tinham 44 células cilíndricas de concreto armado, chegando a 53 metros de altura. Essas estruturas operavam muito próximas a escritórios, depósitos de produtos químicos e áreas residenciais.
A empresa vizinha mais próxima possuía tanques contendo soda cáustica, óleos aromáticos e melaço, um fator que aumentava os riscos em caso de acidente.
O saldo das primeiras horas
Das 11 vítimas fatais, 7 eram empregados fixos, 3 eram trabalhadores terceirizados e 1 era um pescador que passava pelo local. Dez corpos foram encontrados nos escritórios e proximidades ao longo dos três dias seguintes; o corpo do pescador só foi localizado 14 dias depois, sob os escombros próximos à margem do rio Gironde.
Mais de 200 bombeiros e equipes de resgate trabalharam dia e noite, enfrentando 30 mil toneladas de milho, trigo e cevada misturadas a vigas e lajes de concreto. Os funcionários que estavam de férias se apresentaram espontaneamente para ajudar na varredura e reconhecimento do local durante as buscas. Os danos se espalharam por um raio de até 500 metros, quebrando vidros, rompendo tubulações e danificando instalações industriais próximas. Fragmentos de concreto de até um metro foram arremessados a mais de 100 metros do silo, e detritos menores chegaram a 140 metros.
Análise técnica das causas
As investigações conduzidas pelo INERIS (Institut National de l’Environnement Industriel et des Risques) tiveram como objetivo identificar duas questões principais: em que condições se formou a atmosfera explosiva e qual foi a fonte de ignição que deu início ao acidente.
Foram consideradas duas hipóteses para a formação dessa atmosfera: a primeira seria a formação de gases combustíveis no topo das unidades de armazenamento, causada por fenômenos como auto aquecimento, fermentação ou início de incêndio. A segunda hipótese seria a presença de uma mistura explosiva formada por poeira e ar. Após análise detalhada dos depoimentos e das evidências, apenas a segunda hipótese foi confirmada.
Com a hipótese da mistura poeira/ar confirmada, a investigação passou a analisar as possíveis causas da ignição. Foram descartadas atividades de “trabalho a quente” e avaliadas as seguintes possibilidades: centelhas ou calor por atrito mecânico (inclusive superfícies aquecidas), eletricidade estática, centelhas elétricas e auto ignição de poeira acumulada. Após essa análise e considerando que partes do sistema de exaustão não foram encontradas após o acidente, os investigadores apontaram duas origens mais prováveis: choques ou atrito mecânico no ventilador do sistema centralizado de exaustão de poeira, ou um incêndio causado pelo aquecimento gradual da poeira acumulada no reservatório desse sistema.
Fatores que agravaram o acidente
Além da ignição inicial, quatro aspectos estruturais e operacionais contribuíram diretamente para a gravidade do acidente:
- Acúmulo de poeira e falta de limpeza regular
Passadiços superiores, galerias de transporte e áreas internas não eram limpos com frequência. Essa poeira acumulada ao longo dos anos funcionou como um “estoque de combustível”. A primeira explosão levantou esse material, criando uma segunda nuvem de poeira que alimentou a explosão seguinte que foi muito maior e destrutiva. - Falta de sistemas de proteção
A instalação não possuía sistemas de alívio de explosão (vents) nem barreiras de desacoplamento. Sem esses dispositivos, a pressão gerada não encontrou rotas de escape e se espalhou por toda a estrutura. - Interligação de estruturas
As células, galerias e dutos eram todos conectados, permitindo que a onda de pressão viajasse sem barreiras de contenção. Isso causou a destruição rápida de boa parte do complexo. - Fontes de ignição nos equipamentos
O funcionamento contínuo das correias transportadoras e outros sistemas de manuseio de grãos gerava atrito e eletricidade estática, criando condições para centelhas capazes de iniciar a primeira explosão.
Esse conjunto de fatores explica não apenas a origem do acidente, mas também a intensidade e a velocidade com que ele se propagou por toda a instalação.
Consequências legais e mudanças
Três anos após a tragédia, a Justiça francesa responsabilizou o diretor da empresa por falhas na segurança, manutenção e treinamento. A SEMABLA também foi condenada como pessoa jurídica.
O acidente levou à revisão da regulamentação francesa para silos agroindustriais. As novas exigências incluíram:
- Estudos de perigo específicos para cada instalação.
- Distanciamento maior entre áreas administrativas e estruturas de armazenamento.
- Instalação de sistemas de alívio de explosão e desacoplamento.
- Programas contínuos de limpeza e monitoramento de poeira.
Após a tragédia, o INERIS publicou em 2000 um guia técnico para orientar silos agroalimentares em práticas de projeto, manutenção, limpeza, controle ambiental e prevenção de ignição. Também desenvolveu o software EFFEX, utilizado para simular explosões e planejar medidas preventivas.
Para compreender melhor o acidente, o INERIS disponibilizou um vídeo explicativo e bem didático sobre o acidente e suas repercussões.
Até quando vamos negociar com o risco?
Passados mais de vinte anos, a região de Blaye continua dedicada ao armazenamento de grãos, mas a lembrança do acidente permanece. Um monumento erguido no porto homenageia as vítimas e serve como alerta constante: em instalações com poeira combustível, a prevenção precisa ser rotina.
Explosões em silos e unidades de armazenamento continuam a ocorrer em várias partes do mundo, quase sempre com a mesma dinâmica. Por isso, a pergunta que fica é direta: por que, mesmo depois de tantas vidas perdidas, ainda insistimos em negociar com o risco?
E, no fim, é bom lembrar: quando escolhemos negociar com o risco, mais cedo ou mais tarde é ele quem leva a melhor.
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A série Lições Explosivas investiga tragédias industriais envolvendo poeiras combustíveis e condições negligentes de segurança. A cada episódio, um caso real é revisitado em detalhes para revelar as falhas humanas, institucionais e tecnológicas que o provocaram. Mais do que relatar acidentes, esta série busca extrair lições para que outras vidas não se percam da mesma forma.






