A edição 3.0 da norma IEC 60079-10-2, publicada em 29 de junho de 2026, não altera apenas a metodologia de classificação de áreas com poeira combustível. Para quem opera silos, moinhos, unidades de ração e complexos de recebimento de grãos, a atualização toca diretamente em decisões de investimento: onde comprar equipamento com certificação “Ex” continua sendo obrigatório, onde deixa de ser, e quanto tempo e recurso a planta gasta reavaliando essa classificação ao longo dos anos.
A norma ainda não foi internalizada pela ABNT e, portanto, não tem validade normativa no Brasil. Mas o conteúdo técnico já está publicado a nível internacional, o que permite antecipar leitura e planejamento antes que a versão brasileira torne essas mudanças exigíveis.
A lógica por trás da mudança: menos generalização, mais critério técnico
A edição anterior, de 2015 (internalizada pela ABNT em 2016), tratava a classificação de forma mais genérica: qualquer ponto com potencial de liberação de poeira, por menor que fosse, tendia a puxar a área inteira para Zona 22, forçando a especificação de sensores, motores e luminárias com certificação Ex mesmo em microvazamentos pontuais, como pequenas frestas em elevadores de canecas ou bicas de descarga.
A edição 3.0 formaliza um conjunto de definições que já existia na prática de engenharia, mas não estava documentado com esse nível de precisão na norma de poeira: conceitos como Concentração Mínima Explosiva (MEC), Energia Mínima de Ignição (MIE) e Concentração Limite de Oxigênio (LOC) passam a ter definição própria no texto, alinhados a referências como a NFPA 652. Na prática, isso significa que o critério para decidir se um ponto da planta precisa ou não de proteção Ex passa a se apoiar em parâmetros mensuráveis da poeira específica do processo, e não apenas em uma leitura conservadora e genérica do risco.
Zona NE: o principal ponto de atenção para CAPEX
A mudança com maior potencial de impacto financeiro é a formalização da Zona NE, ou zona de extensão insignificante. A norma passa a reconhecer que existem pontos de liberação tão pequenos e tão limitados que, mesmo em caso de ignição, a consequência prática seria insignificante, sem energia suficiente para gerar dano estrutural ou propagar uma explosão maior.
Isso é relevante porque, historicamente, esse tipo de microfonte, um pequeno respiro em rosca transportadora, uma junta de vedação em elevador de canecas, forçava a compra de motores, sensores e luminárias com certificação Ex, mesmo representando uma fração mínima do risco real da planta. Com a Zona NE formalizada, esses pontos passam a poder ser tratados com equipamento de grau de proteção industrial padrão, adequadamente vedado, o que tende a reduzir o CAPEX de modernização e de reposição de almoxarifado em plantas de moagem e recebimento de grãos.
Essa flexibilização não é uma redução de exigência de segurança, é uma exigência de que o enquadramento seja tecnicamente justificado. A norma deve exigir que a planta comprove, ponto a ponto, que aquela fonte específica não gera pressão nem calor suficientes para causar dano, e que não há formação relevante de depósito de poeira ao redor dela. Sem essa comprovação documentada, o enquadramento em Zona NE não se sustenta.
Housekeeping mensurável: o que muda no OPEX
Outro ponto que a edição 3.0 deve reforçar é o tratamento de depósitos de poeira em camadas. A norma passa a fazer referência a espessuras máximas recomendadas antes que a reclassificação da área ou a intensificação do housekeeping se tornem necessárias, um critério que se aproxima do que normas como a NFPA 654 e a NBR 16385 já vinham indicando na prática brasileira. Isso significa que a rotina de limpeza deixa de ser uma boa prática genérica e passa a ser um parâmetro de gestão contínua, com frequência e critério visual mais objetivos, especialmente em passadiços confinados e áreas de acúmulo típicas de unidades de ração e recebimento de grãos.
O reflexo direto está no OPEX: plantas que não conseguem sustentar esse padrão de limpeza tendem a precisar reclassificar a área para uma zona mais restritiva, o que de novo empurra o investimento de volta para equipamento certificado Ex, um ciclo que a documentação bem estruturada ajuda a evitar.
O que ainda precisa de confirmação antes de virar prática de planta
Vale reforçar que parte da leitura de mercado sobre a edição 3.0, incluindo pontos como prazos específicos de revisão periódica para plantas com classificação conservadora, ainda está em fase de interpretação técnica e não deve ser tratada como regra fechada até a publicação do texto final e, principalmente, até a internalização pela ABNT. O recomendável, neste momento, é que equipes de engenharia e segurança de processo acompanhem a publicação oficial e evitem antecipar prazos ou isenções específicas em contratos e projetos.
O papel do monitoramento contínuo nessa transição
Independentemente de quando a ABNT publicar a versão brasileira, a exigência de fundo é a mesma: decisões de classificação de área, seja para justificar uma Zona NE, seja para sustentar um padrão de housekeeping, dependem de dado real de operação, não de suposição. Monitoramento contínuo de poeira em pontos críticos como filtros de manga, túneis e pontos de transferência é uma das formas de gerar esse histórico técnico que sustenta a documentação exigida pela norma.
Como distribuidora exclusiva no Brasil de tecnologias internacionais de monitoramento de poeira e emissões, a Grunn conecta plantas industriais de agronegócio a soluções que ajudam a construir essa base de dados contínua, apoiando decisões de investimento mais precisas e reduzindo o risco de superdimensionar ou subdimensionar a proteção instalada. O monitoramento contínuo é o que torna a classificação de área uma decisão fundamentada, e não uma estimativa.
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Perguntas frequentes
O que é a Zona NE na IEC 60079-10-2:2026? É a zona de extensão insignificante, formalizada na edição 3.0, que reconhece pontos de liberação de poeira tão pequenos que uma eventual ignição não teria consequência relevante, permitindo, quando tecnicamente justificado, o uso de equipamentos com grau de proteção industrial padrão em vez de certificação Ex.
A Zona NE reduz a exigência de segurança da planta? Não. Ela exige que o enquadramento seja documentado e comprovado ponto a ponto, atestando ausência de risco de dano estrutural, calor relevante e formação de depósito de poeira. Sem essa comprovação técnica, a área continua sendo classificada pelos critérios tradicionais.
O que muda no controle de housekeeping com a nova edição? A norma passa a referenciar limites de espessura de camada de poeira mais objetivos, aproximando-se de parâmetros já adotados por normas como a NFPA 654 e a NBR 16385, o que torna a frequência e o critério de limpeza mais mensuráveis do que uma avaliação qualitativa genérica.
Essa norma já vale no Brasil? Ainda não. A IEC 60079-10-2:2026 foi publicada internacionalmente, mas depende da internalização pela ABNT, via Cobei, para ter validade normativa no país. Historicamente, esse processo levou cerca de um ano em revisões anteriores.
Por que monitoramento contínuo de poeira é relevante nesse contexto? Porque a classificação de área, incluindo o enquadramento em Zona NE e a comprovação de housekeeping adequado, depende de dado real de operação. Monitoramento contínuo em pontos críticos da planta é o que sustenta tecnicamente essas decisões perante auditorias e revisões normativas.






